Calor, Crise e Picolés

fevereiro 5, 2010

Sequencia de picolés. É assim que deveria ser. Um por esquina, sol batendo no coco – e minha carranca protege mais que óculos escuros. Mas picolé tá caro, no máximo um de abacaxi ou de goiaba e pronto. É correr para o ventilador e tomar água gelada. Tempos de crise. Cerveja também tá caro e beber com desculpa do calor é cirrose hepática garantida antes do inverno.

Enfim, em tempos de crise tudo parece caro.

Loucura é sair de camisa social e gravata num calor desses. É um puta contraste. Como o contraste da crise: camisa e gravata com menos de dez reais no bolso. E tem ainda aquele, que, na negativa da esmola, me chame de playboy f.d.p. É mole? É mole mais cresce.

Sobre Mulheres

dezembro 28, 2009

Talvez sejam todas elas e ao mesmo tempo. E talvez poucas tenham sido, mas de fato, de alguma forma, foram, mexeram, mudaram, magoaram ou mesmo fizeram-me feliz por algum, muito ou pouco tempo. Enfim é o que se espera, ou o que eu esperava e todos os possíveis desdobramentos e consequências de cada atitude, acerto ou tropeço. Pode parecer um pouco vago, mas não tenho certezas e menos ainda verdades absolutas. Amanhã poderei pensar diferente. Que bom. Não sei se estou satisfeito com estas considerações, mas de alguma forma é bom pensar que tenho algumas coisas claras na minha vida, jamais definitivas, mas bem claras.

Claras quase todas, mas também morenas, de tons mais claros a negras. Todas com alguma beleza, salvo sempre enganos provenientes do álcool – este terrível ingrediente do convívio social e da confusão mental autorizada e incentivada, que de uma forma muito superficial nos nivela, num ritual primitivo e necessário, diante de nossa incapacidade milenar, ocidental, humana.

Personalidades fortes, todas por quem dediquei algum tipo de relação mais duradoura que duas semanas. Acho que atraio estes tipos e não posso dizer que tenho sucesso, simplesmente acontece. Talvez fruto da minha eterna irresponsabilidade, gosto por desafio ou até alguma resistência adquirida no convívio materno – Não é fácil ser filho da minha mãe, mas é muito bom.

Se existe algo de definitivo é que nunca conheceremos totalmente outra pessoa. Primeiro porque já é difícil conhecer a nós mesmos e parece que quando chegamos perto disso, mudamos! nos tornamos diferentes, trocamos os hábitos, comemos mais carne, menos carne, mais ou menos refrigerante e por aí vai. Segundo porque não teria graça. Sabe quando olha para alguém e se fica perguntando o que esta pessoa está pensando? Este poder eu não queria ter.

Vão ficar as histórias que eu puder lembrar, para a roda de amigos, para viver um pouco de cada delas, do melhor delas. A roda de amigos parece sacana, machista, e de certa forma é. Assim como toda tradição: um imenso livro de recortes de melhores momentos, pouco contextualizados com um fim afirmativo, positivo e alguma mentira, apesar da ciência de todo o resto, é uma enganação coletiva e, porque não, divertida.

Sigo, Contudo

agosto 25, 2009

Não vou mais vociferar.
Vou guardar minhas forças
Sem gastar em cólera,
Vou seguir a passo
Os caminhos retos,
Desmanchar as curvas,
Alcançar tudo perto,
Fazer mais o certo.
Vou beber mais depressa
O sabor com mais gás,
Deixar para trás
Porque eu já tenho pressa
E não mais me interessa
Se há guerra ou se há paz
Vou continuar com tudo,
Mesmo porque com tanto,
Ainda parece tão pouco.
E para tudo que é resto,
Passo a encarar cego
E sigo surdo cantando.

Todo sozinho

novembro 20, 2008

Cada passo à frente

É melancolia:

Todo caminho,

Tudo sozinho,

Pouco é que sigo

De tudo já começado,

De tanto já percorrido,

Pouco é que digo

Diante de tudo dito,

De tudo tão bem falado,

E de pouco hoje disponho,

Depois de tanto desgosto

E distante de tudo posto,

Vejo em cada laço rente

O corte que o fez aberto,

Latente a dor que distante

Faz quente a ferida

Que a mantém por perto.

Trem

novembro 7, 2008

Corre o trem,

Olha tu comigo,

Da mesma janela,

Pelo lado oposto

Olho com desgosto

Todo trilho percorrido,

Toda emenda

Que não junta e nem agüenta

Mais carga deste trem

E vai o trem

Não tem outra direção,

Se não outra estação,

Se não mais além

Neste caminho que não encurta

E nem aumenta

Nesta angústia que lamenta

A cada dia que não vem

Em cada espaço mais distante

Tão pouco é mais importante

Que a janela deste trem.

Onde tudo aos olhos passa

Todo cinza me convém

Toda cor já perde a graça

Nosso amor perdeu o trem.

Carlos Eduardo Avila
06-08-2008

Pai

janeiro 29, 2008

Pai de tudo,

Pai de todos.

Confusão da cabeça,

Destempero, descarrego, desassossego.

Desmente tudo, pai

E aparece pra contar

O que viram os teus olhos.

E se alguma dor
Te fez chorar

 

Pai de todos,

Pai de tudo.

Todas interrogações,

Tudo sem futuro,

Tudo sem cabeça.

Mente pai,

Só um pouco,

Pra eu pensar como seria

Diferente.

 

Pai de tudo,

Pai de todos.

Pai, tu sentes desta árvore

Bem ao certo qual teu fruto?

Quão estúpido é maior

Que um aborto ou um estupro?

Como é maior um abismo

Quando não se conhece o fim?

Como é abismo, pai

Tua distância para mim?

Pela Raiz

janeiro 27, 2008

Este tempo é seco
E seca a boca o abandono
Quanto mais avança o tempo
Mais aumenta o desabono
Deixa amargo, tempo seco
E como a natureza seleciono
Cortar laço deste intento
- E disto eu não tenho contento
Mas amarelo é teu sorriso
E se eu penso, então já fiz
Não há volta, nem alento
Só é dor quem faz raiz

Vida Cinza

maio 29, 2007

Vida cinza que me aquece

Em teu ar requentado,

De luz fria iluminado,

Coberto do luxo

Da mobília funcional

- E pastar no teu cercado

Ruminando como gado

É prosperar no teu normal.

Vida cinza não florece

Mas colhe cifras sem igual;

Não me salva, nem me mata,

Mas me ata!

No teu feudo com teu sal.

Vida cinza em qual pereço,

Diferente eram tuas cores

Quando ainda no começo;

De toda forma eu pouco peço

De ti além do meu proveito,

Pois de todo o meu progresso

É sempre pouco o que mereço.

Último Poema

março 30, 2007

Queres retornar

A tua terra e teus espaços

Aos teus afetos e teus laços

Queres, mas no tempo

Não podes retornar

A guilhotina das horas

Faz saudades em pedaços

Apaga quase todos

Os descaminhos e descompassos

Quem sabe num perfume

Ou numa voz te faz lembrar

Sentir, quase reviver

Mas nunca retornar

Árvore

fevereiro 13, 2007

Sou como a árvore:

Crio minhas raízes,

Carrego sempre

Um pouco de minha terra.

Minha casca me protege

- E aumenta a cada dia,

Me isola e banaliza

Tudo o que mais sentido poderia.

Perco minhas folhas,

Mas gero flores e frutos.

Sou alvo fácil

Viro em qualquer corpo bruto

Que não árvore, outra serventia,

Sem pena nem luto.